Por que políticas de saúde específicas para mulheres são um direito, não um favor
iniciativas sociais que ampliam os direitos das mulheres no Brasil não são um benefício opcional ou uma gentileza do Estado. Os direitos humanos das mulheres são um direito básico reconhecido em tratados internacionais como a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, da ONU. No Brasil, a Constituição de 1988 garante o acesso universal à saúde, mas a realidade mostra que mulheres negras, indígenas, lésbicas, trans e de baixa renda enfrentam barreiras adicionais. Um exemplo concreto é a mortalidade materna, que atinge 107 óbitos por 100 mil nascidos vivos entre mulheres negras, contra 46 entre brancas, segundo dados do Ministério da Saúde de 2022. Esses números revelam que políticas genéricas não bastam. É preciso desenhar ações que considerem as desigualdades de gênero, raça e classe, transformando a saúde da mulher em uma pauta central de justiça social.
Muitas mulheres desconhecem que têm direito a atendimentos específicos, como consultas ginecológicas sem a necessidade de autorização do parceiro ou acompanhante. A Lei 12.845 de 2013, que combate a violência doméstica contra mulheres no Brasil, obriga hospitais a oferecer atendimento integral a vítimas de violência sexual, incluindo profilaxia para HIV e gravidez indesejada. No entanto, pesquisas do Instituto Patrícia Galvão mostram que 42% das mulheres não sabem que podem acessar esses serviços gratuitamente. Isso demonstra que a existência de leis não garante sua efetividade. A implementação depende de campanhas de conscientização, treinamento de profissionais de saúde e fiscalização rigorosa, etapas que muitas vezes são negligenciadas por governos e gestores.
Passo 1: Mapear as políticas existentes e identificar lacunas no seu município
Antes de cobrar mudanças, é fundamental saber quais políticas já estão em vigor e onde elas falham. No Brasil, o Sistema Único de Saúde oferece programas como o Rede Cegonha, que visa reduzir a mortalidade materna e infantil, e o Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher, que abrange planejamento familiar, prevenção de câncer de mama e colo do útero, e atendimento a vítimas de violência. No entanto, a cobertura varia drasticamente entre regiões. Em 2023, o Tribunal de Contas da União apontou que apenas 38% dos municípios brasileiros implementaram plenamente o Rede Cegonha, com falhas graves no Norte e Nordeste. Para começar, acesse o site do Ministério da Saúde e baixe os relatórios anuais de execução dos programas. Compare os dados do seu município com a média nacional e identifique quais serviços estão ausentes ou subfinanciados.
Uma ferramenta útil é o Painel de Monitoramento da Saúde da Mulher, disponível no portal do DataSUS. Nele, é possível filtrar informações por raça, idade e tipo de atendimento, como número de mamografias realizadas ou consultas de pré-natal. Se o seu município não aparece nos dados, isso já é um sinal de alerta. Outra fonte são os relatórios das ouvidorias de saúde, que registram reclamações de usuárias. Em São Paulo, por exemplo, 60% das queixas relacionadas à saúde da mulher em 2022 envolviam demora no agendamento de exames ginecológicos. Anote esses números e cruze-os com as metas estabelecidas nos planos municipais de saúde. Se a prefeitura prometeu 100% de cobertura de pré-natal e só atingiu 50%, você terá um argumento concreto para pressionar por melhorias.
Passo 2: Formar ou integrar grupos de pressão com foco em interseccionalidade
Políticas de saúde para mulheres não podem ser discutidas sem considerar raça, orientação sexual, identidade de gênero e condição socioeconômica. Mulheres trans, por exemplo, enfrentam taxas de HIV três vezes maiores que a população geral, mas apenas 12% dos serviços de saúde oferecem atendimento especializado para elas, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Para garantir que as demandas de todos os grupos sejam ouvidas, é preciso construir coalizões interseccionais. Comece mapeando redes de acolhimento LGBTQIA+ para mulheres, como coletivos de mulheres negras e associações de moradoras de periferias. Entre em contato e proponha uma reunião para discutir prioridades comuns. Em Belo Horizonte, o Fórum de Mulheres Negras conseguiu incluir a distribuição gratuita de absorventes em escolas públicas após uma campanha unificada com outros movimentos.
Se não houver grupos organizados na sua região, crie um. Use redes sociais para incentivar a participação política feminina, divulgando um encontro presencial ou virtual e convidando mulheres de diferentes perfis a compartilhar suas experiências. Documente os relatos e transforme-os em um dossiê que possa ser apresentado a vereadores, secretários de saúde e conselhos municipais. Em Recife, um coletivo de mulheres lésbicas e bissexuais conseguiu incluir a vacinação contra HPV para meninas e mulheres até 45 anos no calendário local após apresentar um documento com 500 assinaturas e depoimentos de pacientes que haviam sido negadas o imunizante. A chave é mostrar que as demandas não são individuais, mas coletivas, e que têm respaldo em dados e na legislação.
Passo 3: Exigir transparência e participação nos conselhos de saúde
Os conselhos municipais de saúde são espaços de controle social onde cidadãos podem influenciar a formulação e fiscalização das políticas públicas. No entanto, muitas mulheres desconhecem sua existência ou não sabem como participar. O primeiro passo é localizar o conselho da sua cidade, que geralmente está vinculado à secretaria municipal de saúde. Verifique se há projetos de inclusão para mulheres com deficiência, garantindo representação de grupos historicamente excluídos, como negras, indígenas e trans. Em 2021, uma pesquisa da Fiocruz revelou que apenas 23% dos conselhos de saúde no Brasil tinham mais de 50% de mulheres em sua composição, e menos de 5% incluíam representantes de movimentos LGBTQIA+. Se o conselho da sua cidade não reflete a diversidade da população, organize uma campanha para eleger candidatas comprometidas com a pauta.

Para participar efetivamente, é preciso entender como o conselho funciona. As reuniões são públicas e devem ser divulgadas com antecedência, mas muitas vezes ocorrem em horários inacessíveis para mulheres que trabalham ou têm filhos. Exija que as pautas sejam enviadas com pelo menos 15 dias de antecedência e que as atas sejam publicadas online. Em Porto Alegre, um grupo de mães solo conseguiu alterar o horário das reuniões do conselho após uma petição com 2 mil assinaturas. Além disso, acompanhe os recursos destinados à saúde da mulher no orçamento municipal. Em 2023, o município de Salvador destinou apenas 0,8% do seu orçamento de saúde para programas voltados a mulheres, enquanto a média nacional é de 3,2%. Use esses dados para questionar os gestores e propor emendas que aumentem o financiamento.
Passo 4: Capacitar profissionais de saúde para atendimento não discriminatório
Mesmo quando as políticas existem, sua implementação falha se os profissionais de saúde não estiverem preparados para atender mulheres de forma respeitosa e sem preconceitos. Um estudo da Universidade de São Paulo mostrou que 37% das mulheres negras relatam ter sofrido discriminação racial em consultas ginecológicas, enquanto 65% das mulheres trans afirmam ter sido maltratadas em unidades básicas de saúde. Para mudar esse cenário, é preciso pressionar por capacitações obrigatórias que abordem temas como racismo, LGBTfobia, violência obstétrica e direitos reprodutivos. Em 2022, o estado do Rio de Janeiro tornou obrigatório o curso “Saúde da População Negra” para todos os servidores da rede pública, após uma campanha liderada por organizações de mulheres negras. Replique essa estratégia no seu município.
Comece identificando quais instituições de ensino ou ONGs locais oferecem cursos sobre saúde e direitos das mulheres. Em parceria com o conselho municipal de saúde, proponha a criação de um programa de formação contínua para médicos, enfermeiros e agentes comunitários. Em Fortaleza, o projeto “Saúde sem Machismo” treinou 1.200 profissionais em dois anos, reduzindo em 40% as denúncias de violência obstétrica. Além disso, exija que as unidades de saúde afixem cartazes com os direitos das pacientes, como o de recusar procedimentos desnecessários durante o parto. Em São Luís, a iniciativa “Parto Humanizado Já” conseguiu que 80% das maternidades públicas adotassem protocolos de respeito à autonomia das mulheres após uma série de audiências públicas.
Passo 5: Monitorar a implementação das políticas com indicadores claros
De nada adianta aprovar leis e programas se não houver acompanhamento para garantir que sejam cumpridos. Para monitorar a implementação das políticas de saúde para mulheres, é preciso definir indicadores específicos e mensuráveis. Por exemplo, se o município se comprometeu a oferecer mamografias gratuitas para mulheres acima de 50 anos, um indicador pode ser a porcentagem de mulheres nessa faixa etária que realizaram o exame nos últimos dois anos. Em 2023, o município de Curitiba atingiu 78% de cobertura, enquanto em Manaus o índice foi de apenas 32%. Esses números devem ser divulgados publicamente e usados para cobrar explicações dos gestores. Outro indicador importante é o tempo médio de espera para consultas ginecológicas, que não deve ultrapassar 30 dias, segundo o Ministério da Saúde.

Para coletar esses dados, utilize a Lei de Acesso à Informação e solicite relatórios detalhados à secretaria municipal de saúde. Se as informações não forem fornecidas, recorra ao Ministério Público ou à Defensoria Pública. Em 2021, um grupo de mulheres em Campinas conseguiu, por meio de uma ação civil pública, que a prefeitura divulgasse os dados de mortalidade materna por raça e bairro. Além disso, crie um observatório cidadão, como o “Saúde das Mulheres em Dados”, que reúne voluntárias para acompanhar os indicadores e publicar relatórios periódicos. Em Belo Horizonte, o observatório identificou que 60% das unidades básicas de saúde não ofereciam atendimento a mulheres vítimas de violência, o que levou à criação de um protocolo de encaminhamento obrigatório.
Passo 6: Usar a mídia e as redes sociais para amplificar as demandas
A pressão por políticas de saúde para mulheres ganha força quando as demandas são visibilizadas na mídia e nas redes sociais. Em 2020, a campanha “Absorvente Já”, que pedia a distribuição gratuita de absorventes para mulheres em situação de vulnerabilidade, viralizou no Twitter e levou o governo federal a criar o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual. Para replicar esse sucesso, é preciso dominar técnicas de comunicação estratégica. Comece identificando quais veículos locais cobrem pautas de direitos das mulheres e estabeleça contato com jornalistas. Envie releases com dados concretos, como o número de mulheres que morrem por falta de atendimento ginecológico no seu município, e ofereça fontes para entrevistas, como especialistas e mulheres afetadas.
Nas redes sociais, crie conteúdos que combinem informação e engajamento. Em vez de apenas postar dados, produza vídeos curtos com depoimentos de mulheres que enfrentaram dificuldades no sistema de saúde, como a história de uma mãe solo que esperou seis meses por uma mamografia. Use hashtags como #SaúdeÉDireito e #MulheresExigemRespeito para aumentar o alcance. Em 2023, a campanha “Parto Seguro para Todas” conseguiu mobilizar 50 mil pessoas em uma petição online que exigia a implementação de casas de parto em todo o país. Além disso, organize lives e webinários com especialistas para discutir temas como violência obstétrica e direitos reprodutivos. Em Salvador, uma série de lives sobre saúde mental de mulheres negras atraiu mais de 10 mil visualizações e resultou na criação de um grupo de apoio psicológico gratuito.
Erros comuns que sabotam a luta por políticas de saúde para mulheres
Um dos erros mais frequentes é tratar as políticas de saúde para mulheres como um tema secundário, desvinculado de outras lutas sociais. Muitas vezes, ativistas focam apenas em questões reprodutivas, como aborto e parto humanizado, e deixam de lado demandas como saúde mental, doenças crônicas e acesso a medicamentos. Em 2022, uma pesquisa da Rede Feminista de Saúde mostrou que 70% das mulheres com diabetes ou hipertensão não recebem acompanhamento adequado no SUS, mas esses temas raramente são priorizados em campanhas. Outro erro é não envolver homens na discussão, especialmente em comunidades onde o machismo é forte. Em cidades do interior do Nordeste, grupos de mulheres conseguiram reduzir a resistência a exames ginecológicos após incluir líderes religiosos e maridos em rodas de conversa sobre saúde feminina.
Também é comum ignorar as diferenças regionais e culturais. Uma política que funciona em São Paulo pode não ser viável em Roraima, onde muitas mulheres indígenas não falam português e dependem de agentes de saúde comunitários. Em 2021, o município de Boa Vista implementou um programa de pré-natal itinerante para mulheres Yanomami, que visitava aldeias de barco, mas a iniciativa foi descontinuada por falta de recursos. Para evitar esse tipo de fracasso, é preciso adaptar as estratégias às realidades locais. Por fim, muitas mulheres desistem de cobrar mudanças por medo de represálias ou por achar que não têm poder. No entanto, casos como o de uma moradora de periferia de São Paulo, que conseguiu a instalação de uma UBS em seu bairro após dois anos de protestos, mostram que a persistência é fundamental. O segredo é documentar cada passo, buscar aliados e nunca aceitar um “não” como resposta definitiva.
Sou apaixonada por questões de gênero e direitos humanos, e acredito que a igualdade de gênero é fundamental para uma sociedade justa. Estou sempre procurando aprender e compartilhar informações sobre iniciativas que promovam a empoderamento das mulheres e a conscientização sobre os desafios que elas enfrentam. Quero contribuir para criar um espaço onde as vozes das mulheres sejam ouvidas e respeitadas.
